Em vésperas de se celebrar a "República"
Carlos Cândido dos Reis nasceu em 1852, em Cabo-Verde e morreu em 1910, na Travessa das Freiras, em Arroios. Foi vice-almirante, tendo entrado para a Marinha com apenas 17 anos. Entre outras coisas destacou-se como pertencendo à "Carbonária," iniciando-se ainda, diz-se, na "Maçonaria em 9 de dezembro de 1909 por Magalhães Lima, com o nome simbólico de Pêro de Alenquer"
Anticlericarista, destacou-se como uma das figuras que preparou a revolução, mas teve a infelicidade de não assistir à mesma. Depois do "golpe fracassado de 28 de janeiro de 1908, que devia começar com a prisão de João Franco, então chefe do governo," o desânimo não o fez desistir e rapidamente se reergueu na luta, transformando-se num dos organizadores militares que poriam na rua a "revolta de 5 de Outubro de 1910." O seu papel na sociedade ainda hoje é considerado como de grande relevância, no que concerne particularmente à "insurreição republicana iniciada em Lisboa à uma da manhã" do dia 4 de outubro de 1910. No entanto, quando na "tarde do dia 3 de outubro de 1910," se sabe "que o então chefe do governo, Teixeira de Sousa, tinha sido avisado do golpe republicano e pusera de prevenção as tropas leais à causa monárquica, a maioria dos chefes republicanos" acaba por pensar em desistir e é proposto "um adiamento do golpe." Cândido dos Reis opõe-se a esse adiamento.
Como combinado, o almirante cobriu a farda de gala com um sobretudo e ficou "no Cais da Viscondessa" a aguardar "transporte para os navios de guerra fundeados no Tejo – os cruzadores S. Rafael, Adamastor e D. Carlos." Mas à "hora marcada, não encontrou o barco previsto, acabou por tentar embarcar noutro, que não estava pronto para navegar, e por fim vieram dizer-lhe que tudo falhara."
Alguém lhe terá comunicado que estava tudo tranquilo em Lisboa e Cândido "acabou por se recolher à casa de uma irmã, na rua D. Estefânia. Durante a madrugada, concluiu provavelmente que a aventura revolucionária só servira para o comprometer." Perante a notícia que circulava de que a "maioria das unidades militares comprometidas no movimento não" se tinha chegado a revoltar e que "muitos oficiais do exército, julgando tudo perdido, haviam abandonado o entrincheiramento da Rotunda," o então vice-almirante, "pensando estar o golpe frustrado," recusou prosseguir e subir "a bordo de um dos navios que estava implicado no movimento. Despediu-se dos oficiais da Marinha mais próximos e horas depois," já na madrugada de 5 de outubro, "era encontrado morto na Azinhaga das Freiras," em frente ao hospital de Arroios. O suicídio, cometido com um tiro de pistola, ter-se-á dado não só em consequência "dos factos," mas também do seu "temperamento hipocondríaco que lhe proporcionava crises de entusiasmo e de depressão frequentes."
Nunca chegaria a saber que "os navios de guerra acabaram mesmo por se revoltar e que umas centenas de sargentos e de soldados insurrectos, acampados na Rotunda (hoje praça Marquês de Pombal)," haviam resistido "o tempo necessário para a monarquia constitucional se desconjuntar." Por um lado, este suicídio, bem como as fugas que ocorreram a essa data, vieram revelar "o carácter caótico" de uma "conspiração" que tinha tudo para correr mal.
Para que os revolucionários não se desmotivassem ao saber do suicídio, chegou mesmo a ser mandado imprimir e distribuído "um panfleto a anunciar que" Cândido dos Reis era o vice-almirante responsável pelo avanço das "tropas da marinha," fazendo com que muita gente continuasse a acreditar que era ele "quem dirigia a revolução."
Entretanto, outras coisas acabam também por correr mal, entre elas, o facto do "Dr. Miguel Bombarda, um dos chefes civis do golpe e senhor de muitos dos seus segredos," ter sido "atingido a tiro por um doente mental do Hospital de Rilhafoles."
De facto, as primeiras "grandes cerimónias da república" foram mesmo as exéquias de Cândido dos Reis e do médico "Miguel Bombarda, considerado o chefe civil da revolução" acabou por ser "assassinado por um doente na manhã de 3 de Outubro," o que "fez recear a revolução." Se no caso da morte do vice-almirante, "a hipótese de suicídio" tivesse sido "sustentada por um estudante que lhe dedicou uma tese defendida na Faculdade de Medicina de Lisboa em Dezembro de 1911," o caso de Miguel Bombarda terá sido mesmo um atentado.
Sem a participação de Reis ou de Bombarda, provavelmente a revolução republicana não teria acontecido em outubro de 1910. A função de Cândido dos Reis, que pertencia à maçonaria, teria sido a de "recrutar oficiais na marinha e no exército para um golpe armado contra a monarquia constitucional."
"Na última reunião dos conspiradores, às oito meia da noite de 3 outubro," Cândido dos Reis mostrou ser um dos mais decididos, mas o governo tinha posto "a guarnição de Lisboa de prevenção," e isso fez com que alguns achassem "que tudo devia ser adiado. Reis, extremamente exaltado, contrariou a tendência" da maioria.
Além de ser maçon, Reis também se dava "com jornalistas republicanos." No entanto, "nada disso o impedira de fazer uma carreira cheia de promoções e de condecorações na marinha, com serviço nas colónias," sendo também bastante estimado pelo "rei D. Carlos," que o considerava um “homem de bem”.
Bombarda, que "também não era militante do PRP," era um "crente na ciência como única base legítima do conhecimento, e como tal inimigo do clero católico tradicionalista, especialmente dos jesuítas." No entanto, "isso não o impedira de ser deputado da monarquia e de apoiar o primeiro governo nomeado por D. Manuel II em 1908."
Bombarda só aderiria ao ideal revolucionário em "1909, quando julgou perceber que a influência clerical apenas poderia ser desfeita através de uma mudança de regime."
O suicídio de Cândido dos Reis é muito significativo, principalmente devido à sua reputação de “austeridade”, de vida “espartana”. Era um homem simples e "de opções violentas, que não aceitava calculismos nem transigências." Terá até referido várias vezes que o suicídio seria uma possibilidade caso a revolução fracassasse, repetindo em cada reunião que seria “vitória ou morte."
Nessa madrugada, "o almirante não deve ter suportado a ideia" de vir a ser preso, julgado e deportado.
"Mais do que os tribunais da monarquia, receava provavelmente a imprensa republicana, que havia de o culpar pela precipitação e pelo fracasso do golpe," lembrando-se como tinha terminado "a sublevação do 31 de Janeiro de 1891, no Porto, com a imprensa republicana a renegar a iniciativa e os presos a acusarem-se uns aos outros."
Também os "nove oficiais do exército que deviam ter comando as tropas concentradas na Rotunda" fugiram, e os "líderes do Partido Republicano" acabaram por se esconder e desaparecer: "a maioria só tornou a ser vista na tarde do dia 5 de outubro," já depois de ter sido "proclamada a república."
Foi possivelmente devido às más comunicações que o vice-almirante se acabou por ver "sozinho na madrugada do dia 4 e acreditou que tudo falhara. Mas este caos também salvou a revolução. Se a conspiração tivesse tido uma estrutura centralizada, dirigida por Reis, a sua morte poderia ter comprometido tudo." Este movimento, que acabou por não ser liderado pelo Partido Republicano, acabou por corresponder em vez disso "à divisão e à alienação das elites da monarquia constitucional," e a revolução acabou assim por ser organizada por dissidentes da monarquia, como Bombarda, e consumada por activistas desconhecidos, como Machado Santos."
O nome do Almirante Carlos Cândido dos Reis foi utilizado para nomear ruas e avenidas, tendo também sido usado "para substituir o nome de D. Carlos I no principal cruzador da esquadra portuguesa. Será que com Bombarda e Reis, vivos, os primeiros governos teriam tomado outro rumo?
Comentários
Enviar um comentário