Queda e morte de Sá Carneiro
A 4 de dezembro de 1980, ocorreu aquela que ficaria para a história como a Tragédia de Camarate. O avião Cessna onde seguiam o "primeiro-ministro português Francisco Sá Carneiro, o ministro da Defesa Adelino Amaro da Costa, outros três passageiros e os dois pilotos do avião," caiu sobre o "bairro das Fontaínhas, em Camarate", na zona norte de Lisboa." O "general Soares Carneiro" encontrava-se em campanha presidencial - candidatando-se pela Aliança Democrática (AD).
O Cessna encontrava-se ao serviço do Estado, levando a um comício no Porto o "ministro da Defesa português, Adelino Amaro da Costa", o "então primeiro-ministro português," Francisco Sá Carneiro. Acompanhando-os foram ainda a companheira do primeiro-ministro, Snu Abecassis (de 40 anos), e a esposa de Amaro da Costa, "Maria Manuel Simões Vaz da Silva Pires," bem como "o chefe de gabinete do primeiro-ministro, António Patrício Gouveia, e os dois pilotos do aparelho, Jorge Albuquerque e Alfredo de Sousa."
Sabe-se depois que Soares Carneiro, candidato à Presidência da República, afinal não se tinha deslocado ao dito comício no Porto, mas sim a "Setúbal nessa noite, acompanhado de Freitas do Amaral."
Este desastre aéreo "começou a ser investigado no próprio dia do desastre e foi alvo de vários inquéritos," tendo na época sido concluído pelas autoridades que o acidente teria sido "causado pela falta de combustível num dos tanques," ideia que até hoje nos estarnhas visto "o impacto no solo" ter ocorrido apenas "26 segundos depois da descolagem." Pela sua gravidade, foi abertura do telejornal da RTP, com o "jornalista Raul Durão" a abri-lo com "a notícia da morte de Francisco Sá Carneiro e as primeiras imagens do local da tragédia, que mostravam, sem filtros, o avião destruído e corpos carbonizados — imagens que marcaram uma geração.
Existiram diversas versões na altura, umas mais coerentes do que outras. Segundo a descrição de algumas testemunhas, o avião terá "embatido em cabos de baixa tensão, perdendo velocidade e acabando por se despenhar e incendiar sobre uma casa do bairro das Fontaínhas. Mas se algumas testemunhas alegam "terem visto o Cessna a incendiar-se aquando do impacto final contra as habitações," outras há que dizem "que o aparelho já se encontrava em chamas durante o voo, antes ainda do primeiro embate contra os cabos de baixa tensão." Esta segunda versão terá sido depois confirmada.
De acordo com o "relatório final da polícia", em 1981, ficariam excluídas "ações criminosas." Até agora várias foram as teorias sobre as causas e os motivos que levaram à queda da aeronave: acidente ou atentado? Questões políticas? Questões militares? Muito ainda está por explicar e, os culpados ou os mandantes, estão em silêncio.
As investigaçõe levavam a cada vez mais desconfianças e menos certezas, tendo conduzido "à abertura de várias comissões parlamentares de inquérito (dez ao todo), com a primeira comissão de inquérito parlamentar, constituída em novembro de 1982, a recomendar o aprofundamento das investigações criminais." Isso não chegou a acontecer, pelo menos, naquela altura. Inclusivamente, em 1983, "uma das testemunhas centrais no caso" José Moreira, o dono da aeronave - apareceu morto junto com a sua esposa, Elisabete Silva. As mortes ocorreram depois de "terem levado a cabo uma investigação própria ao caso. Foram encontrados mortos em casa por inalação de monóxido de carbono, dias antes de testemunharem no Parlamento," mas as suspeitas recaem para que tenha sido um assassinato e não um descuido.
Mais tarde, em 1995, o processo voltaria a ser aberto, com a investigação judicial, a exumar "os corpos das vítimas," do desastre aéreo. No relatório forense, as conclusões apresentadas foram de que "provavelmente não teria havido uma explosão na aeronave, embora essa possibilidade não tenha sido descartada. Depois de entrevistar José Esteves, que mais tarde disse ter fabricado um dispositivo para o ataque, o processo-crime foi suspenso. Um processo particular lançado por familiares das vítimas foi declarado barrado no tempo em 1996, com exceção de um alegado conspirador, L.R., que foi detido no Brasil por outros motivos, levando à suspensão do prazo de 15 anos no seu caso."
Em 1998, "um juiz do tribunal distrital do Ministério Público" declarou que o "desastre havia sido acidental, uma decisão confirmada pelo Tribunal de Recursos em 2000, com um acórdão de 800 páginas." Mas novamente, o tempo levou a melhor e o processo foi barrado.
Ricardo Sá Fernandes, advogado dos familiares das vítimas, vem ainda em 2001, publicar um livro no qual argumentava que "o alvo do assassinato" não teria sido Sá Carneiro, mas sim o "então recém-nomeado ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa, civil, devido ao seu conhecimento sobre acordos de armamento com o Irão obtido a partir da sua nova posição."
Já em 2004, Nuno Melo argumenta no seu relatório final, que este acidente "tinha sido causado por um engenho explosivo na aeronave." Esta declaração vem depois a ser reforçada com as declarações de "um antigo segurança" - José Esteves - que afirmou durante uma entrevista, "ter colocado um engenho explosivo da sua autoria a bordo da aeronave," com a intenção de "somente (...) assustar os ocupantes," nada foi investigado. José Esteves informou "que a intenção era que o dispositivo provocasse um incêndio antes da descolagem, permitindo que os ocupantes evacuassem em segurança, mas dando um aviso ao candidato presidencial António Soares Carneiro."
Segundo este segurança, o engenho incendiário foi por ele "entregue na Rua Augusta, numa loja, debaixo de um 'puff'", alegando que esse mesmo engenho "teria sido posteriormente alterado por forma a fazer explodir o avião." No entanto, e uma vez que o caso já tinha prescrito, ninguém foi julgado nem condenado, não havendo "sequer provas forenses conclusivas quanto à real existência do dito engenho explosivo nem da sua eventual detonação."
Os desafios jurídicos foram rejeitados pelo Supremo Tribunal em 2006, tendo sido interposto um recurso ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem em 2007, alegando violação do artigo 6.º da Convenção Europeia dos Direitos do Homem e que o caso havia sido barrado no prazo devido à negligência das autoridades portuguesas."
É da prisão de "Vale dos Judeus, onde estava preso por outros crimes," que em 2012, o "alegado ex-agente da CIA Fernando Farinha Simões reclama ter sido também um dos organizadores do atentado de Camarate." De acordo com a carta de Farinha Simões, o atentado teria sido comentido a "mando da CIA," e que o alvo principal "era o ministro Adelino Amaro da Costa por estar a tentar acabar com o tráfico de armas, a investigar o fundo de desenvolvimento do Ultramar, e a tentar acabar com lobbies instalados”. Dizia ainda que "Sá Carneiro estava também (...) na mira da CIA por ser antiamericano e por apoiar Amaro da Costa. À carta, vinha ainda "anexada com uma declaração onde autorizava José Esteves" a divulgá-la "na internet."
Note-se que a relação com o Irão nunca chegou a ser nem provada nem descartada e as declarações de Fernando Farinha Simões, vêm desta forma dar força à confisão de José Esteves e levam "à abertura de uma nova comissão de inquérito, em 2013. Vem a ser novamente tomada a linha de pensamento defendida por Nuno Melo, o que leva a que se vá "investigar a venda de armas ao Irão" e ao "Fundo de defesa do Ultramar" do Exército. Nuno Melo vem ainda afirmar que "Adelino Amaro da Costa" - ministro da defesa - tinha feito perguntas "ao Exército português sobre essa venda de armas, em 2 de dezembro de 1980, e que no dia 5 de dezembro, um dia após a sua morte, o Exército tinha emitido uma ordem declarando ilegal a venda de armas sob a sua jurisdição - não sob a jurisdiçao do Ministro da Defesa."
Em Agosto de 2020, o irmão de uma das vítimas (o chefe de Gabinete do Primeiro-Ministro, António Patrício Gouveia), veio argumentar "que o atentado" havia sido "planeado por cinco elementos do Partido Republicano dos Estados Unidos e por agentes da secreta americana," voltando a reposicionar as dúvidas sobre o Irão, desta vez, sobre a "venda ilegal de armas ao Irão, venda que deveria passar por Portugal."
Quem sou eu, mas, na minha opinião houve atentado. Talvez não interesse rever provas ou na época não se quisesse adensar as investigações. Um caso que, passados 45 anos, continua a dar que falar. O que seria hoje a política se o atentado não tivesse ocorrido?
Fontes:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Trag%C3%A9dia_de_Camarate
https://zap.aeiou.pt/camarate-45-anos-depois-a-ferida-que-a-democracia-nunca-sarou-715144
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