Assalto ao Paquete Santa Maria

Na madrugada de 21 para 22 de janeiro de 1961, o paquete Santa Maria foi tomado de assalto por um grupo composto por 23 elementos (portugueses e espanhóis) e durante vários dias, não havia a certeza de onde se encontrava o navio, nem o que se passava a bordo. O paquete levava cerca de 600 passageiros e encontrava-se ao "largo das Caraíbas, em mais uma viagem regular até Miami."

O golpe, com o nome "Dulcineia" teve como cabecilha um ex-militar português, Henrique Galvão, acompanhado por oficial da marinha espanhola, Jorge Soutomaior. Henrique Galvão, tal como Humberto Delgado, eram da oposição e tinham até sido protegidos por Salazar. Já haviam inclusivamente participado no 28 de maio de 1926, como "Tenentes de Maio." Galvão começara a afastar-se do Regime nos anos 40, tendo sido preso em 1944 por "conspiração militar" contra o Regime.

O objetivo do golpe contra o Santa Maria, era o "de provocar uma crise política no regime de Salazar." Galvão pretendia levar o paquete até Luanda, onde tencionava desembarcar e, "a partir dali organizar um golpe de estado para derrubar o regime."

No entanto, o barco é abordado por "unidades de guerra americanas," enquanto navegava no Atlântico e levado para o Brasil, "onde Galvão e o seu grupo pedem asilo político." Enquanto estavam no Brasil, os sequestradores e representantes do governo americano, negociaram sobre o destino a dar aos cidadãos americanos que se encontravam a bordo.

"Aproveitando a concentração de jornalistas em Luanda, que esperavam a chegada do Santa Maria, o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) desencadeia ataques contra uma prisão e uma esquadra de policia na cidade."

Depois disso, o navio seria libertado, regressando a Portugal a meio de fevereiro. "Da operação resultou um morto entre os tripulantes do Santa Maria" - o "piloto Nascimento Costa" - bem como, ferimentos em outros oficiais, o que compromete desde logo o plano inicial. Sobre o golpe, duas perspetivas: enquanto para "o capitão Henrique Galvão, o assalto ao Santa Maria foi uma vitória," considerando-o mesmo "um acto de heroicidade lusitana," para "o comandante Jorge Soutomaior," o golpe constituiu "um fracasso," "um esforço frustrado de um colectivo galaico-português."

Este ataque "inseriu-se não só na luta contra as ditaduras ibéricas mas também na luta contra o colonialismo."

Ao saber do assalte, Salazar pede apoio aos aliados para que ajudassem "a localizar o paquete, alegando tratar-se de um ato de pirataria. Embarcações norte-americanas e britânicas lançam-se ao mar, em busca do navio," embora só o tenham conseguido detetar quatro dias depois. No entanto, um telegrama vindo do Santa Maria, em nome da Junta de Salvação Nacional Independente de Libertação e em que é referido Humberto Delgado, como presidente legítimo, acaba por mudar a perceção sobre o golpe e "a atitude dos aliados" também se altera.

Apesar de Salazar ter tentado que o asssalto ao Santa Maria "fosse considerado como pirataria," este "acabou por ser reconhecido pelos EUA como um acto de beligerância legítima, tendo o Brasil dado asilo político aos ocupantes do navio." O novo governo de Kennedy tinha tirado a Portugal alguma da proteção e era contra os regimes ditatoriais. Os militares portugueses começavam também a sentir esta hostilidade, principalmente porque Portugal fazia parte da NATO. 

O golpe, planeado por Humberto Delgado e Henrique Galvão, que acaba por ser apoiado também pelo novo presidente do Brasil, Jânio Quadros, não tem no entanto os resultados esperados. A embaixada portuguesa em Caracas, na Venezuela, já sabia da preparação do golpe. Estava previsto a tomada da ilha espanhola de Fernando Pó, mas isso nunca chegou a acontecer. Com a morte de Nascimento Costa e com vários oficiais feridos, decidem ir à ilha de Santa Lucia deixar os feridos para que fossem tratados e isso acabaria por comprometer as ações seguintes. A Ditadura acaba por sobreviver ao golpe, mas a questão de Angola começa a ser cada vez mais complicada. Sabe-se que o "arranque da insurgência em Angola decorre de apoios americanos, antes de a URSS se comprometer, através de Cuba, no esforço de guerra civil que levaria à independência de Angola."

Fontes:

https://ensina.rtp.pt/artigo/desvio-santa-maria-principio-guerra-ultramar/

https://ensina.rtp.pt/artigo/a-rtp-e-o-assalto-ao-santa-maria/

https://www.publico.pt/2010/09/18/jornal/o-outro-lado--da-historia-do-assalto--ao-santa-maria-20226967

https://observador.pt/programas/e-o-resto-e-historia/o-assalto-ao-paquete-santa-maria-60-anos-depois/

https://www.museudoaljube.pt/2023/01/21/o-assalto-ao-santa-maria/

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