A 10 de março de 1826, num Portugal diferente do Portugal de agora, mas do qual apenas nos separam 200 anos, morreu D. João VI. Nascido em maio de 1767, na cidade de Lisboa, D. João era o segundo na ascendência ao trono a seguir ao seu irmão D. José. O pai era D. Pedro III, rei consorte, ou seja, por casamento com D. Maria I (que era além de sua esposa, sua sobrinha mais nova).
Ao contrário do irmão, João não estava preparado para assumir o trono, mas a morte de D. José (possivelmente vítima de um surto de varíola que assolava o país) fez com que passasse à linha direta de sucessão e acabasse por se revelar "uma figura central na transição de Portugal para a modernidade."
Durante o seu governo, o país viveu uma época de grande instabilidade. Foi o sétimo rei da Dinastia de Bragança, a quarta dinastia de Portugal. Debateu-se com as guerras napoleónicas e com uma guerra civil, que oporia dois dos seus filhos.
Casa-se em 1785 com a infanta espanhola D. Carlota Joaquina (filha de Carlos IV de Espanha e da sua mulher Maria Luísa de Parma, irmã do príncipe Fernando, futuro Fernando VI da Espanha, e neta do rei Carlos III da Espanha), que na época tinha apenas 10 anos. No mesmo ano, acaba por ter de proteger a mãe, mantendo-se como intermediário entre a soberana e os seus ministros, mas em 1792, com a doença de D. Maria I a agravar-se, D. João acaba por se tornar representante da coroa, apesar da sua recusa em assumir o título de Príncipe Regente. D. Maria I debatia-se com problemas do foro mental, à época pouco compreendidos, mas que se iam agravando com as mortes da filha, D. Mariana, do marido e seu tio, D. Pedro III, e do seu filho D. José, mas D. João mantinha a convicção de que a mãe se poderia curar. Só em 1799 é que D. João acaba por receber "o título de Príncipe Regente, que manteve até a morte da rainha em 1816, ano em que se tornou oficialmente rei."
Do casamento com Carlota (consumado quando a jovem tinha 15 anos) teve 9 filhos, "incluindo o futuro rei D. Pedro IV de Portugal" - conhecido como "Pedro de Alcântara (1798-1834)," e que se tornaria o "futuro imperador Dom Pedro I" - e o "infante D. Miguel."
Durante vários anos, Portugal foi-se conseguindo manter neutro, mas em 1808, a França emite um Ultimato a Portugal que deixa D. João sem grandes opções. Assim, nesse mesmo ano, perante a ameaça francesa e sob proteção de navios britânicos, D. João decide transferir a Corte para o Brasil tentando proteger-se a si e aos seus. Em outubro, assina com Inglaterra "uma convenção secreta." O exército invasor entra em Portugal no dia 20 de novembro.
Primeiramente, "a decisão de retirar para o Brasil," estaria apenas prevista "para o herdeiro (Príncipe da Beira, D. Pedro)," mas acabou por ser "alargada a toda a família real. Foi uma decisão de emergência, apressada. Os navios saíram do porto de Lisboa a 29 e as tropas francesas entraram na cidade na manhã do dia seguinte." D. Maria I, faz esta viagem já bastante debilitada. Uma vez que a "transferência da corte para o Brasil era do interesse britânico," esta decisão acabou por significar o "alinhamento definitivo de Portugal com a Inglaterra." Portugal acabaria por sofrer "mais duas tentativas de invasão por parte da França," o que deixou a população bastante indignada com este abandono.
É o "Duque de Wellington e mais tarde o general Beresford" que acabam por governar o país na ausência da Família Real, o que não é do agrado dos portugueses.
A presença da Corte portuguesa no Brasil, dá àquele território uma nova importância, uma vez que passa a ser ali que se constitui a sede do governo português. Esta presença fica marcada pela abertura dos portos ao comércio internacional e à fundação de instituições como a Biblioteca Nacional e o Jardim Botânico, bem como a "Academia de Belas Artes e a Imprensa Régia." Por exemplo, logo a "1 de abril, por meio de alvará, D. João decretou a liberdade industrial, revogando o alvará de D. Maria I, que proibia o estabelecimento de fábricas no Brasil."
A 17 de dezembro de 1815, o Brasil é oficialmente elevado "à categoria de Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve," deixando de ser uma colónia de Portugal.
Mais tarde, o seu filho D. Pedro, na época Regente do Brasil, adere à "causa independentista" e proclama "a independência do território," (tendo acontecido o conhecido episódio do Grito do Ipiranga), com a justificação de que "o Brasil não admitia ser novamente relegado para a categoria de colónia."
Em resultado da ausência da família real, o país fica sob proteção inglesa, o que na prática significa estar sob "domínio de uma ditadura militar inglesa, comandada por Beresford." O descontentamento da população, fez "explodir, em 1820, na cidade do Porto, uma revolução." Mas é apenas quando a guerra termina, em 1821, que D. João VI acaba por ser praticamente obrigado "a regressar, já com um regime constitucional em preparação." Começou aqui a instauração do liberalismo em Portugal.
O rei D. João VI foi muitas vezes acusado de cobarde e dele dito que tinha pouca relevância, o que se poderá apor ao facto de ter saído de Portugal e ido para o Brasil o que muitos consideraram como um abandono. Foi também muitas vezes acusado de ter pouca higiene, mas esta é uma realidade que tem vindo a ser desconstruída por atuais historiadores. Na prática, D. João governou durante 34 anos, mas desses apenas se consideram dez como Rei, sendo que a maioria do seu reinado ocorre no Brasil.
Sobre o final da sua vida e da sua sucessão, sabe-se que Dom João VI "faleceu no Paço da Bemposta, em Lisboa, no dia 10 de março de 1826." Com a sua morte, o filho, "o imperador D. Pedro I do Brasil decidiu contrariar as restrições das leis portuguesas e das brasileiras e assumiu o poder em Lisboa no dia 26 de abril de 1826, como Pedro IV, o 27.º rei de Portugal."
No entanto, D. Pedro IV acaba por abdicar alguns dias depois, a "2 de maio de 1826," a favor da sua filha primogénita, "a princesa Maria da Glória, de sete anos, futura D. Maria II, e determinou que" o seu irmão mais novo, D. "Miguel, fosse o regente do reino," até à maioridade de D. Maria (futura rainha D. Maria II).
Fontes: