segunda-feira, 5 de outubro de 2026

5 de outubro de 1910, o culminar do derrube de uma monarquia

Assinala-se hoje por todo o país a Implantação da República. A nova forma de governação vinha assim substituir uma monarquia que caía sem grandes esforças, perante um país pobre que continuava a ficar para trás no comboio da Europa. Mas como é que a Casa Real portuguesa, com mais de oito séculos de história, se deixa derrubar, depois de ter sobrevivido a tantas provações ao longo do tempo? Temos de voltar um pouco atrás para perceber que o 5 de outubro foi apenas o culminar de uma sucessão de acontecimentos.

Inspirando-se nas ideias liberais vindas de França (1870) e da vizinha Espanha (1873), um grupo de pessoas, junta-se para formar o Partido Republicano. No entanto, as ideias que serviram de base à sua fundação já estariam em banho-maria desde "as Cortes Gerais de 1820, assim como na ideologia setembrista (a partir de 1836) e na Patuleia (1846–1847)." O Partido é criado com a autorização de D. Luís. A "3 de Abril de 1870 foi eleito um Diretório Republicano Democrático, que se pode considerar o embrião do Partido Republicano," mas só seis anos depois, a "25 de Março de 1876 foi legalmente criado, com consentimento do rei D. Luís, o Partido Republicano." Apesar de ter feito funcionar a Monarquia Constitucional e de ter sido sob o seu mandato que a Rede Ferroviária nacional teve o seu maior crescimento, D. Luís não teve um reinado fácil. Era um homem culto, mas não tinha sido educado para governar. No entanto, a morte de D. Pedro, seu irmão, acaba por catapultá-lo para o trono de um país que ele tinha servido na Marinha e não na política. 

Não se pode dizer que D. Luís não tenha feito o país avançar, mas fê-lo recorrendo muitas vezes ao endividamento, mal visto pelos Progressistas, que o acusaram de "parcialidade". Este mau estar foi-se agravando e foi dando palco a novas ideias que se começavam a afirmar. "Em 1883 realizou-se o Congresso do Comité Organizador do Partido Republicano Português. No final do reinado de D. Luís, o Partido Republicano já se encontrava consolidado como uma força política plenamente estruturada." No ano seguinte, realizou-se a tão afamada "Conferência de Berlim," da qual nasceria "o denominado Mapa cor-de-rosa, o qual definiu a divisão territorial da África entre as principais potências coloniais" europeias. 

D. Luís morre de sífilis em 1889 e é o seu filho D. Carlos que sobe ao trono. O país estava em plena crise política e, rapidamente, a Inglaterra, descontente com as divisões da proposta do Mapa cor-de-rosa, se impõe através de um Ultimato. Até ao Ultimato Inglês (1890), o Partido Republicano nunca tinha conseguido uma grande representação política, mas é o descontentamento do povo contra as cedências de Portugal que faz com que cresça. A Carbonária surge em 1896. Em 1889, a proclamação da República no Brasil, influencia também a determinação dos opositores da monarquia, especialmente da pequena e média burguesia que estava desejosa de "tomar as rédeas do poder."

João Franco, dissidente do Partido Regenerador, foi designado por D. Carlos para "o lugar de Presidente do Conselho de Ministros" e logo após a sua designação pede ao rei para que encerre o Parlamento, o que levanta toda a oposição contra o rei, que se torna "no alvo de todas as críticas, que acusavam Franco de governar em Ditadura." 

A "assinatura do Decreto de 30 de Janeiro de 1908, que previa a expulsão sumária para as colónias dos envolvidos numa intentona republicana ocorrida dois dias antes, precipitaram os acontecimentos," que levam ao Regicídio. D. Carlos, encontrava-se em Vila Viçosa com a restante família real e, vê-se obrigado a vir dar a cara a Lisboa. "A comitiva régia chegou ao Barreiro ao final da tarde, onde tomou o vapor D. Luís, com destino à Estação Fluvial Sul e Sueste, desembarcando no Terreiro do Paço por volta das 17 horas da tarde." Há a ideia de que o rei havia sido avisado de que poderia haver um atentado contra a sua vida, mas apesar dessa suspeita e do "clima de grande tensão, o rei optou por seguir em carruagem aberta, com uma reduzida escolta, para demonstrar normalidade."

Enquanto passavam pela Praça, saudando a multidão ali presente, o rei, D. Carlos e o seu filho e herdeiro, o Príncipe Real D. Luís Filipe, são assassinados. O atentado pode explicar-se devido "ao progressivo desgaste do sistema político português, vigente desde a Regeneração, em parte devido à erosão política originada pela alternância e rotatividade de dois partidos no Poder: o Progressista e o Regenerador." 

Com apenas 18 anos, D. Manuel II, segundo filho de D. Carlos e da princesa Amélia de Orleães, sobe ao trono, mas a verdade é que não estava preparado para governar o reino. "A sua primeira decisão consistiu em reunir o Conselho de Estado," e demite imediatamente "o primeiro-ministro João Franco, cuja política de força foi considerada responsável pela tragédia." Mas apesar de ter acalmado um pouco os ânimos, não seria capaz de parar a revolução que se encontrava já em marcha. O PRP cresce e, com a formação de um novo diretório no congresso de Setúbal, apoiada pela Carbonária, cresce também o movimento revolucionário. Em novembro de 1908, nas eleições municipais a câmara de Lisboa, passa a ser do Partido Republicano e, nas eleições legislativas, o mesmo partido consegue a maioria na zona de Lisboa.

A 3 de outubro de 1910, o "Adamastor" dá apenas três tiros dos 31 que haviam sido combinados. No entanto, a revolta avança mesmo assim. Há hesitação nos quartéis. O quartel de Marinheiros em Alcântara, "é tomado com algumas detenções." Há mortos nas ruas e a coluna que vai capturar o rei acaba por ser abordada pela guarda real. Retrocedem e, depois de terem atacado a esquadra do Rato, a coluna segue até à Avenida da Liberdade, onde a guarda municipal confronta o grupo composto não só por militares mas também por civis armados. O país assiste àquilo que poderia ter sido o início de uma nova guerra civil. O plano inicial tinha falhado e têm de se barricar. Faltava Cândido dos Reis, que por desconhecimento do que realmente se estava a passar e pensando que tudo tinha falhado, acaba por pôr fim à sua vida. O almirante, nunca chegaria a ver a Implantação da República pela qual tinha lutado.

Quando o dia 4 de outubro nasce, o ambiente é de pesar. A batalha está num impasse, muitos dos oficiais desertaram e a população, com medo dos dias que podem advir, abastece-se como pode. Entretanto, os dois cruzadores (Adamastor e São Rafael), que estavam no Tejo, apontam ao Palácio onde o rei se encontra e começam a bombardear o edifício. Ao todo "são disparadas 40 granadas" que encurralam o último rei de Portugal no Palácio das Necessidades. Teixeira de Sousa pede ao rei que "fuja", pois já não tem forma de o proteger, concentrando os seus esforços na Rotunda, onde se encontra a maioria dos revoltosos. Quando Paiva Couceiro chega, toma a decisão de avançar sobre os revoltosos e atacá-los. Há vários mortos, feridos e desertores. À tarde, "os barcos voltam a bombardear as Necessidades" e o rei cede, fugindo, escondido numa carruagem, com direção a Mafra. Podia ter agido de outra forma e não o fez, deixando toda a responsabilidade sobre os ombros de Paiva Couceiro. Nessa noite, o couraçado D. Carlos é tomado por Carlos da Maia. 

No dia 4 de outubro, a República já tinha sido proclamada em locais como Loures, Almada, Seixal ou Barreiro. Em Lisboa, os combates continuam pela madrugada fora e há vítimas civis a lamentar.

No dia seguinte, ocorre a "Proclamação da República" da varanda da Câmara Municipal de Lisboa. Eusébio Leão é proclamado governador civil e cria o Edital que declara que "Ordem e Trabalho é a divisa da pátria libertada pela República." É constituído o Governo Provisório que conta com Correia Barreto como "ministro da guerra", com Bernardino Machado, como "ministro dos Negócios Estrangeiros". Pelas ruas, celebra-se! Vinte e dois mil exemplares da letra de "A Portuguesa", são distribuídos pelas ruas para que os populares a decorem. Bandas tocam o novo Hino pelas ruas.

 No dia 6 de outubro, "consumada a vitória republicana, D. Manuel II" embarca no iate real "Amélia",  que estava acostado na Ericeira e segue "com destino ao Porto."

Os oficiais a bordo acabam por, em vez de seguir as indicações do rei deposto, levá-lo para Gibraltar. "A família real desembarcou em Gibraltar, recebendo-os logo a notícia de que o Porto aderira à República. O golpe de Estado estava terminado. A família real seguiu dali para o Reino Unido, onde foi recebida pelo rei Jorge V do Reino Unido."

Fontes:

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/5-de-outubro-o-subito-desenlace/

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/4-de-outubro-o-ultimo-dia-do-rei/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Partido_Republicano_Portugu%C3%AAs

https://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_I_de_Portugal

https://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_II_de_Portugal

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/5-de-outubro-implantacao-da-republica/

Ver também:

https://elsafilipecadernodiario.blogs.sapo.pt/o-almirante-que-nao-chegou-a-ver-a-374670

https://pesnahistoria.blogspot.com/2025/10/em-vesperas-de-se-celebrar-republica.html

https://pesnahistoria.blogspot.com/2026/01/o-ultimato-ingles.html

https://pesnahistoria.blogspot.com/2025/10/uma-sucessao-de-erros-e-mal-entendidos_3.html


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