quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Castelo e Ermidas na Lousã

Esta semana rumámos (eu e o meu filho) até à Lousã, onde viemos a descobrir alguns pontos de interesse. Hoje fomos visitar a praia fluvial da Senhora da Piedade, não sem antes passar pelo castelo. De seguida fizemos o percurso na direção da capela de Nossa Senhora da Piedade, passando pelas fontes de água límpida e fresca. 

Começando pelo castelo (Castelo da Lousã ou de "Arouce"), o espaço está muito bem cuidado, havendo escadas de acesso com corrimão (ótimo para pessoas desastradas como eu que tropeçam em todas as pedrinhas). Subindo a torre de menagem, tal como o castelo toda ela erguida em xisto, ficamos com uma vista deslumbrante sobre a paisagem envolvente. Existe um percurso pedonal (um passadiço com cerca de 1200 metros de extensão) mas, talvez devido ao mau tempo do último inverno, tem zonas intransitáveis (o mesmo está já a ser intervencionado) e podemos também visitar o "Centro de Interpretação e Acolhimento." Este castelo, "pertence a uma das primeiras linhas defensivas" que impediam o acesso a Coimbra, tendo sido construído ainda no século XI (1080), por ordem de D. Sisnando Davides. 

"Em 1124" o castelo foi tomado pelos mouros, (numa incursão "almorávida"), mas seria recuperado para o Condado Portucalense em 1151. Fiquei na dúvida se foi reconquistado por "D. Afonso Henriques" ou se pelas tropas da "condessa D. Teresa de Leão," que depois o mandaria recuperar. Existe uma lenda sobre este castelo que depois aqui colocarei no blogue.

A nossa visita não ficou por ali, e penso que quem visitar o castelo, tal como nós, se vá sentir deslumbrado com a paisagem envolvente e com vontade de conhecer um pouco mais. Dali se avistavam já as piscinas, um arco e duas igrejas. Apesar de haver estrada até junto das piscinas fluviais, deixámos o carro perto do castelo e descemos a pé. A piscina é bastante segura e a água límpida e fria convida a um banho (ficámo-nos por molhar as pernas, apenas), existindo vigilância (dois nadadores salvadores) e um café com uma pequena esplanada. Esta zona é conhecida por "Burgo" que dá nome também ao restaurante que ali se encontra. Importante também saber que tem bandeira de Praia Acessível e bandeira Azul.

Subindo, fomos ver o arco e parámos junto da Fonte da Vida. Seguindo a estrada encontramos depois as escadinhas que nos levam até a uma das três capelas: Nossa Senhora da Piedade, São João e Nossa Senhora da Agonia. Na primeira, observamos logo à entrada uma magnífica imagem de Isabel de Aragão em azulejos. A capela (ou ermida), de devoção Mariana, é pequena, albergando as "esculturas de S. Paio e de S. João Evangelista em calcário pintado do século XV."

Já na cidade, visitámos o Museu Etnográfico. É de entrada livre e gratuita e podemos descobrir um pouco mais sobre a Lousã. Inclui artefatos romanos e outros ainda mais antigos, bem como armas do século XVIII e XIX, entre outras coisas.

À tarde, fomos até à praia fluvial da Senhora da Graça, localizada à entrada de Serpins. Na verdade, o que ali se forma é uma piscina, vigiada por nadadores salvadores e vedada, com fundo de pedra e, numa zona mais funda, temos uma prancha de saltos. Podemos escolher entre a zona de areia branca ou a zona arborizada e de relva. Os acessos até ali são bons, há estacionamento, casa de banho e um café. 

A tarde não terminaria sem uma ida à piscina do parque Carlos Reis (mesmo ao lado da Pousada da Juventude), que já tínhamos visitado ontem à tarde. Esta piscina tem um preço bastante acessível e é vigiada. Não se pode comer no espaço da piscina, encerrando a mesma durante o período de almoço.

Fontes:

https://cm-lousa.pt/locais/castelo-de-arouce/

https://cm-lousa.pt/locais/praia-fluvial-sra-da-piedade/

https://www.visitportugal.com/pt-pt/NR/exeres/BC5DC68B-A503-4144-9A10-6E38045923BD




segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Marcello Caetano: um apoiante ou um opositor do Regime?

Marcello Caetano nasceu há precisamente 120 anos, a 17 de agosto de 1906, e faleceu a 26 de outubro de 1980. Como figura histórica, foi o último Presidente do Conselho do Estado Novo, mas aquilo que poucos saberão é que ele foi um dos grandes opositores à forma de Salazar gerir o país. Nascido em Lisboa, fez o curso de Letras no Liceu Camões, licenciou-se em direito na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e, mais tarde, doutorou-se em "Ciências Político-Económicas em 1931." Durante a sua juventude chegou a ser apoiante do "Integralismo Lusitano", um grupo "tradicionalista português e monárquico, ativo e influente entre 1914 e 1932 que se opunha à Implantação da República Portuguesa," bem como aos próprios ideais do "Estado Novo de Oliveira Salazar, à Monarquia Constitucional" e ao "Liberalismo." Em 1926, "participou na fundação" do movimento "Ordem Nova", que se dizia "antimoderno, antiliberal e antidemocrático," e que era "uma corrente próxima do fascismo italiano."

A sua carreira na política começou cedo, mesmo antes de ter concluído os seus estudos, tendo sido, em 1929, convidado pelo próprio Salazar para o cargo de assessor jurídico do ministro das Finanças e em 1933 chegou mesmo a contribuir para a elaboração da Constituição. Foi conservador do Registo Civil e, mais tarde, chegaria a Professor, tendo tido um papel preponderante no desenvolvimento do "moderno Direito Administrativo português, cuja disciplina sistematizou e ordenou, influenciando sucessivas gerações de juristas, no modo de pensar uma Administração Pública limitada pelos direitos dos particulares e sujeita a controlo jurisdicional, embora limitado por considerações políticas." Foi ainda "professor de Ciência Política e Direito Constitucional."

Destacou-se ainda como um dos fundadores da Mocidade Portuguesa e fez parte da direção da União Nacional. Em 1944, tomou posse como Ministro das Colónias, posto que deixa em 1948, para tomar posse como administrador do "Banco Nacional Ultramarino."

Com a morte de Carmona em 1951, Marcello Caetano opõe-se à possibilidade de uma Restauração monárquica, ideia defendida por uma fação dentro do Regime, uma vez que, na sua opinião tal opção, naquela altura, viria a "perturbar o equilíbrio das forças dentro do regime." De facto, o salazarismo dividiu-se a certa altura em duas correntes: os que defendiam o Estado Novo como um regime popular e aceite pelo povo, deixando de lado a repressão da ditadura militar, e os que seguiam as ideias de Salazar, de defesa do nacionalismo, com recurso a uma maior repressão, um regime muito menos flexível, acreditando que o regime poderia existir sem a Ditadura Militar. Esta linha de pensamento, fez com que Marcello Caetano acabasse por entrar em confronto com o ministro das finanças, exigindo políticas sociais mais ativas e abrangentes e que levassem ao desenvolvimento do país.

Em 1955 assume o cargo de Ministro da Presidência (assumindo-se assim como a segunda figura mais importante do Estado). 

Marcello Caetano capta novos contatos e cria quase que uma rede de apoio dentro do próprio governo, desde elementos da Mocidade Portuguesa, da Universidade de Lisboa, - incluindo até o próprio Mário Soares de quem havia sido professor. O chamado "Marcelismo" começa a incluir assim apoiantes de várias frentes políticas, assim como do próprio Craveiro Lopes. 

Torna-se reitor da Universidade de Lisboa em 1959, "demitindo-se em 1962, no seguimento da Crise Académica desse ano, por se ter sentido desautorizado pela ação repressiva da polícia de choque contra os estudantes."

É Américo Tomás, que acaba por o nomear para substituir Salazar a "27 de Setembro de 1968," tendo tido apoio da burguesia que esperava uma maior abertura política e a possibilidade da realização de Eleições livres. No entanto, no ano seguinte, as tão esperadas eleições não deram a oportunidade de uma concorrência livre. A oposição não conseguiu eleger ninguém para a Assembleia Nacional.

A televisão dava os primeiros passos em Portugal e acabaria por ser ele "o primeiro líder político a utilizar, de forma direta e sistemática, este meio de comunicação de massas para tentar legitimar o seu poder. Deste modo, Marcello passou a aparecer semanalmente num programa da RTP chamado Conversa em Família, explicando aos Portugueses as suas políticas e ideias para o futuro do país." Durante o seu governo, impulsiona a democratização do ensino (através do ministro Veiga Simão), alarga os "mecanismos da Segurança Social"(através do ministro Baltazar Rebelo de Sousa) e "constrói as bases" do "Serviço Nacional de Saúde."

Em 1974, "foi cercado no quartel do Carmo" pelo MFA e obrigado a entregar o poder, ato que aceitou fazer apenas a um general, neste caso, ao general Spínola. Saiu escondido dentro de uma viatura militar e exilou-se no Brasil onde trabalhou como professor e onde acabaria por falecer aos 74 anos.

Fontes:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Marcello_Caetano

https://pt.wikipedia.org/wiki/Integralismo_Lusitano

https://observador.pt/programas/e-o-resto-e-historia/marcello-caetano-nasceu-ha-120-anos-quem-foi-ele/

https://ensina.rtp.pt/artigo/os-anos-de-poder-de-marcelo-caetano/

https://ensina.rtp.pt/artigo/o-album-de-marcello-caetano/

sábado, 8 de agosto de 2026

Visita guiada à Quinta da Fidalga

A Quinta da Fidalga dista da minha casa cerca de 300 metros (se a distância for medida entre a minha janela da cozinha e o muro da quinta, não serão mais de quinze, por isso, ao longo dos anos tem sido um sítio já bastante visitado por mim. Já tinha escrito há uns anos sobre a mesma baseando-me em informação que encontrei e também das visitas que fiz.

Em eventos ou apenas para passear é um local calmo, acolhedor e com boas sombras (só é pena as melgas e os mosquitos), mas enfim, isto para dizer que, apesar de morar perto e de conhecer bem a quinta, hoje acompanhei uma visita guiada à mesma. A visita foi-nos guiada pela querida Ana Apolinário, da C. M. Seixal e o grupo contava com portugueses, espanhóis, italianos e franceses. 

E terminada a visita que durou cerca de 2 horas, posso dizer-vos que recomendo totalmente que, se tiverem oportunidade, o façam, mesmo em locais pelos quais passam todos os dias, pois há sempre mais para saber. Uma das coisas que me surpreendeu, foi que esta Quinta, em particular, construída no século XV, havia sido requalificada em meados dos anos 40 - 50 do século passado e que muito do que hoje vemos, já não é o que originalmente ali existia. Eu quando a conheci ainda a câmara estava a iniciar as obras de recuperação do espaço e, para quem hoje diz que está em mau estado, haviam de a ter visto há 15 ou 20 anos.

A Quinta, que antes era conhecida como Quinta do Grou, tem hoje em dia pouco mais de 4 hectares, mas já teve mais de trinta. Era uma das cerca de duas milhares de quintas que no século XVII compunham a paisagem do estuário do Tejo e de onde saiam todos os produtos alimentares  (vinhas, cereais e fruta, especialmente as chamadas "árvores de espinhos", ou seja laranja e limão) carregados por via fluvial para Lisboa. 

A quinta foi propriedade da família Gama, mas também dos Lobo e dos Salema, importantes famílias de fidalgos, mas que não pertenciam à nobreza, ou seja, não eram famílias muito abastadas apesar de viverem melhor do que o restante da população. Um desses fidalgos, escrivão da Casa da Índia, por onde passava toda a informação sobre o comércio ultramarino, das feitorias e das colónias espalhadas pelo mundo e que tinha os seus escritórios no Terreiro do Paço, foi um dos primeiros donos desta quinta. Quando se fala aqui em Gama, é certamente uma parte da família mas não se trata diretamente de Vasco ou de Paulo, que também tiveram a sua importância e têm uma forte ligação ao Seixal, mas não diretamente através desta quinta em si.

Pelo que se sabe, antes do sismo de 1755, a casa principal seria um edifício que ficaria mais ao centro da quinta (talvez mais ou menos onde hoje há o relvado e o café), mas que não terá sido reconstruído depois do terramoto. O palacete que hoje conhecemos terá sido erguido já depois deste evento. O nome de Quinta da Fidalga foi um nome popular que passou a ser usado já em finais do século XIX e que tem a sua origem numa história de amor. D. Maria Bernardina, filha de Manuel da Gama - descendente dos Salema - ter-se-á apaixonado por um rapaz bem apessoado, mas que por ser filho 3º, não era do agrado do seu pai para casamento. Para mais, o jovem seria apoiante dos liberais, algo completamente contra os ideais monárquicos e absolutistas defendidos pelo seu pai. A história que Ana nos conta não nos mostra uma mulher fraca nem desiludida - como outros já a fizeram parecer - mas uma mulher lutadora que entre dois casamentos, numa época conturbada em que os direitos das mulheres e a sua liberdade estavam ainda demasiado dependentes da vontade de uma sociedade machista, criou 11 filhos, mas essa história deixo para que vocês a escutem numa próxima visita!

Onde temos agora a capela era, na verdade, um lagar de azeite e espaço de arrumos. Ao longo dos anos, a disposição da quinta foi sofrendo algumas alterações, uma delas foi a da capela que, na sua localização inicial, ficava onde hoje é a receção administrada pela CMS, na ponta do lado do rio - para onde está agora, do lado oposto. Esta foi uma das diversas intervenções feitas pelo arquiteto Raúl Lino, e que ficou concluída nos anos 50, tendo sido inaugurada pelo Cardeal Cerejeira (Estado Novo). Eu pensava que a capela fosse muito mais antiga apesar da fachada ter elementos mais recentes, mas fiquei a saber que a Piettá que está onde antes era o altar, remontará ao século XVII ou XVIII mas que foi adquirida já em "segunda mão", tal como o teto, comprado de uma outra capela do norte do país. Os azulejos também não são todos originais. Foram comprados já no século XX, muitos deles reproduções, para substituírem os antigos que os proprietários foram vendendo (esses sim do século XVIII ou XIX). O frontão de mármore que encima a porta da capela será talvez do século XVI.

Ficando ainda pelo pátio, do lado oposto temos três painéis de azulejos que terão sido projetados e adquiridos aquando da obra de requalificação do espaço, mas que só foram depois colocados aquando da aquisição do espaço pela CMS, já na entrada do século XXI. No jardim, espaço que eu acho magnífico, podemos encontrar um jardim de buxos (aquele que eu e muita gente chamamos de "labirinto") que foi já muito mais majestoso, com grandes obras de topiaria. Quando a quinta foi requalificada nos anos 50, o muro teve de ser ligeiramente recuado, pois já aqui passava uma estrada (na época, ainda em terra batida, fazia a ligação Sesimbra - Seixal). Assim, até as escadas que nos permitem a subida ao pequeno miradouro (onde temos um antiquíssimo relógio de sol) acabaram por ficar em parte, dentro desse mesmo muro. 

O Lago, único pela sua configuração, tem uma ligação constante com o rio Judeu, que na verdade é um braço do estuário do Tejo. Rio de água salobra, é na verdade uma autêntica maternidade de peixes, que cá vêm procriar para depois voltarem a alto mar. Assim, o próprio lago era uma fonte de abastecimento de peixe para venda. Há pouco tempo, o lado teve de ser drenado para ser limpo, devido à natural acumulação de lodos no seu fundo.

Uma das Fontes que visitámos - o espaço está a ser intervencionado e não visitámos todas as Fontes - foi a de Neptuno. Esta é uma das várias fontes de embrexadas que encontramos na Quinta e que dela serão originais (embora na maioria tenham havido já intervenções e retoques ao longo dos anos). Neste caso, falta a estatueta que encimaria a fonte e de que só restam os "pés" ou seja a base. As fontes têm motivos marítimos, figuras alegóricas que representam povos de outras latitudes, peixes, golfinhos, crocodilos e figuras mitológicas numa clara mistura de estilos arquitetónicos e decorativos.

A próxima visita será dia 12 de setembro. É gratuita mas sujeita a inscrição, aqui: https://www.cm-seixal.pt/evento/historias-da-quinta


quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Os últimos condenados à morte em Portugal

A pena de morte é uma constante na nossa literatura e aparece como castigo para os mais variadíssimos crimes. Estes crimes incluíam desde o assassinato, aos "pecados, vícios, blasfémia e roubos." Na Idade Média, era comum a execução através do enforcamento e da morte na fogueira, mas havia também outras formas de "castigo," como o "degredo" e as "penas pecuniárias", ou seja, o pagamento de multas.

No século XVIII, especialmente durante a governação de D. José I e do seu ministro (Marquês de Pombal) ocorreu um sem número de execuções sendo a mais famosa de todas, a que resultou do processo dos Távora, que foram acusados de tentar atentar contra a vida do rei. Estes acabaram torturados com "requintes de malvadez" e depois mortos. Sobre esta execução restaram diversos relatos que podem ser consultados e que nos mostram a crueldade destas execuções. Na mesma época, foram também condenados à morte por enforcamento, 21 homens e 5 mulheres, acusados de se revoltarem contra o governo.

Até 1774, os corpos acabavam expostos durante dias em praça pública, como que a servir de exemplo. Depois desta data, os corpos passaram a ser enviados para a Faculdade de Medicina, para poderem ser "autopsiados" e servir como fonte de aprendizagem para os estudantes poderem praticar. Em França, durante o período Jacobino (1793 - 1794) foram realizadas cerca de "17 mil execuções" numa média que rondava as "30 por dia". 

Já em Portugal, o conflito entre miguelistas e liberais levou a várias execuções de ambos os lados. Uma delas, ocorreu nos Açores, onde "cinco soldados" foram "fuzilados por rebelião."

De acordo com a Assembleia da República, Portugal terá abolido a pena de morte em 1867, no que respeita aos crimes civis, o que podemos observar numa carta datada de 15 de julho de 1867, em que se escreve:

"A 27 de fevereiro de 1867, Barjona de Freitas, Ministro dos Negócios Eclesiásticos e de Justiça, apresenta, na Sala das Sessões da Câmara dos Deputados, uma proposta de lei sobre a reforma penal das prisões, que contempla a abolição da pena de morte para os crimes comuns."

Governava D. Luís I quando a "1 de julho de 1867," é assinada por ele a "carta de lei" que vem sancionar "o decreto das Cortes Gerais de 26 de junho de 1867”, e aprovar "a reforma penal e das prisões, com abolição da pena de morte," que a mãe, D. Maria II já haveria apoiado. Já antes havia sido abolida a pena de morte para os crimes políticos, em 1852. Sobre as opiniões divergentes que pareciam existir, é importante referir que se opôs a estas medidas o deputado Manuel de Carvalho, e relembrar as palavras de Aire de Gouveia que já havia tentado antes acabar com a profissão de Carrasco:

"Aires de Gouveia, Deputado que, em 1863, apresentara iniciativas para eliminar o ofício de carrasco e para abolir a pena capital, considera a condenação à morte "ilegítima", "desnecessária", "inútil" e "absurda" e defende a sua supressão para todos os crimes, incluindo os militares."

Em 1870, a pena capital seria abolida também de todas as "províncias ultramarinas". Estas povoações haviam sido durante muito tempo usadas para deportações, sendo que quem era condenado a ir para lá acabava por ficar livre, mas sem poder regressar, ou seja, era como se fosse condenado a "morrer" lá, longe dos seus, sem bens e sem prestígio.

No respeitante aos crimes militares, só seria abolida em 1911, depois da Implantação da república Em 1916, durante a Grande Guerra, é esta pena reposta "em caso de guerra com nação estrangeira, em tanto quanto a aplicação dessa pena seja indispensável, e apenas no teatro da guerra". 

A abolição da pena de morte para todos os crimes só volta a ser consagrada na Constituição de 1976.
Mas quem foi o último condenado à morte em Portugal? Na prática, terá sido um soldado, durante a 1ª Grande Guerra, quando João Ferreira de Almeida é acusado de se tentar passar "para o inimigo, sendo condenado em tribunal de guerra à pena de morte por crime de traição à pátria e executado no lugar de Picantin, perto de Laventie, na região de Pas-de-Calais, a 16 de Setembro de 1917."

A nível civil as últimas condenações terão sido as de Diogo Alves, em 1841, a de Francisco Matias Lobo em 1842, a de José Joaquim em 1846 e a de Luísa de Jesus, ainda em 1772. 

No caso de Diogo Alves, este foi executado "por enforcamento a 19 de fevereiro de 1841, no Cais do Tojo," acusado de ser o autor de uma "vaga de assassinatos ocorrida no Aqueduto das Águas Livres entre 1836 e 1841, embora nunca tenha sido julgado ou sequer formalmente acusado de tais crimes."

Francisco Matias Lobo foi condenado à morte pelo "roubo e assassinato de uma família." 

No caso de José Joaquim, que dava pela alcunha de "o Grande" e tinha combatido "ativamente na Guerra Civil que opôs Absolutistas e Liberais", a execução aconteceu em Lagos, a "22 de Abril de 1846," depois de ter sido condenado pela morte de uma mulher a tiro. A mulher, "Bernarda" era criada do seu tio e padrinho de casamento, Major Ferreira da Silva, e "foi primeiro violada e depois morta com especial violência," com “um tiro de espingarda ou um ‘tiro de Pólvora’ cortando-lhe os bicos e peitos”. Este processo arrastar-se-ia durante 13 anos.

Já Luísa de Jesus, executada a 1 de julho de 1772, teve como base da pena o assassinato de "33 expostos, ou seja, bebés abandonados que ela ia buscar à roda de Coimbra, umas vezes usando o seu nome verdadeiro, outras usando um nome falso, apenas com o intuito de se apoderar do enxoval da criança e embolsar os 600 réis que eram dados de cada vez que se ia buscar uma criança." Depois de ter confessado 28 desses homicídios a ré, natural de Penacova e de apenas 23 anos de idade, foi condenada à morte: "Uma vez chegada ao lugar da forca, cortaram-lhe as mãos e foi garroteada até morrer. Posteriormente, o seu cadáver foi queimado, para que não fosse possível sepultar os seus restos mortais."

Entretanto, terão sido também condenados à morte por enforcamento, Manuel Pires," natural de "Moimenta da Beira," e enforcado a 8 de Maio de 1845 e José Maria, conhecido pela alcunha de o "Calças", que terá sido enforcado "no Campo do Tabolado, em Chaves, a 19 de Setembro de 1845."

Já em Inglaterra, a última execução terá acontecido em 1964 (no caso do último homem) e em 1955 (última mulher condenada à morte).

Fontes:

https://www.parlamento.pt/Parlamento/Paginas/abolicaopenamorte.aspx

https://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADsa_de_Jesus

https://observador.pt/programas/e-o-resto-e-historia/os-ultimos-condenados-a-morte-em-portugal/

https://expresso.pt/sociedade/2017-07-01-Foi-enforcado-em-Lagos-Jose-Joaquim-uma-historia-que-mete-politica-e-um-crime-hediondo-2


terça-feira, 4 de agosto de 2026

Ceuta - A única cidade que não aclamou D. João IV

Em pleno século XVII, saídos de um período de 60 anos de governação Filipina, D. João IV é aclamado rei de Portugal. Estava instaurada a 4ª dinastia, a dos "Bragança." A esta aclamação seguir-se-ia a "Guerra da Restauração" que duraria cerca de 8 anos e que oporia portugueses e espanhóis.

No entanto, a aclamação de D. João IV não foi completa, uma vez que Ceuta, uma pequena península no norte de África, não o aceitou como rei, preferindo continuar sobre o jugo espanhol. A verdade, é que a sua posição geográfica aproximava-os mais da Andaluzia, do que de Portugal, sendo um constrangimento para a coroa portuguesa que não tinha forma de lhes assegurar mantimentos e proteção. E Espanha tinha. Portugal acabou por reconhecê-lo no Tratado de Lisboa (1648) em que ficou registada a aceitação de que Espanha ficasse com aquela parte do território.

Conquistada em pleno século XV, por D. João I e pelos seus filhos (1415), Ceuta desempenhou um papel muito importante para as viagens de expansão marítima. Conquistar aquela praça tinha sido muito bem visto entre as várias classes sociais portuguesas, pois permitir-lhes-ias a abertura de "rotas para o ouro africano," mas também para a "expansão da fé cristã." De facto, o rei D. João IV "ganhava assim uma cidade comercial importante, ao mesmo tempo que conquistava a admiração dos outros monarcas europeus e da própria Igreja, que apoiava a luta contra os infiéis do Islão."

Além disso, seria também importante no que respeita ao "domínio do comércio além-mar." Na realidade, Ceuta permitiu a Portugal ficar "com um forte poder de interferência no estreito de Gibraltar, entre o Atlântico e o Mediterrâneo."

No entanto, aquela praça que era povoada de comerciantes, começou a ficar cada vez mais pobre, o que se pode justificar pela alteração das rotas comerciais pelos muçulmanos. Em vez de dar lucro, começou a dar prejuízos. Hoje em dia, ainda são visíveis partes das fortificações aí erigidas pelos portugueses, "de acordo com modernas técnicas de defesa da arquitetura militar europeia da época," mas também vestígios das sucessivas ocupações. Duas das tentativas ocorreram em 1418 e em 1419, pelos marroquinos.

Se Ceuta foi vista como rampa de lançamento da exploração de territórios africanos e de expansão marítima, o mesmo teria acontecido mas em sentido contrário, quando em 711, século VIII, "logo após a conquista árabe do Norte da África, a cidade foi usada como ponto de partida para a Invasão muçulmana da Península Ibérica. " A cidade foi passando de mão em mão, e a sua localização estratégica em "frente ao estreito de Gibraltar conferia-lhe o controlo de um dos principais mercados do comércio transafricano de ouro sudanês."

Fontes:

https://www.dn.pt/internacional/ceuta-foi-a-nica-cidade-do-imprio-portugus-que-no-reconheceu-joo-iv-como-rei-em-1640

https://pt.wikipedia.org/wiki/Conquista_de_Ceuta

https://ensina.rtp.pt/artigo/a-conquista-de-ceuta-um-dia-de-combate/

https://cadernodiario1983.blogspot.com/2026/07/a-invasao-de-ceuta-que-nao-e-uma.html



5 de outubro de 1910, o culminar do derrube de uma monarquia

Assinala-se hoje por todo o país a Implantação da República. A nova forma de governação vinha assim substituir uma monarquia que caía sem gr...